Uma visão pessoal sobre o Acidente da TAM e outras tragédias

Acidente de avião da TAM

Nós adoramos tragédias. É difícil dizer isso, mas é a verdade. Ontem quando cheguei do trabalho pude assistir a mais uma cobertura exaustiva da televisão em cima de um acidente. Não que eles não devam fazer isso, mas é que os instintos humanos mais depraváveis aparecem por conta de uma situação como essa.

A todo o momento, Datena falava na Band que tudo iria desmoronar e que mais pessoas poderiam morrer. Quando os bombeiros reagiam a um ruído na estrutura do prédio, ele fazia alarde. Todos esperando por mais uma eminente tragédia, que poderia ser transmitida ao vivo. Eu assistia atônito, nem prestando muita atenção no meu pão com manteiga e café com leite.

Na Record e na Globo a cobertura também ficava repetindo vídeos do desespero dos familiares nos balcões da TAM. Lastimável, um caos em meio a outro. E o pior de tudo é saber que eu queria assistir mais daquilo. O programa estava interessando a mim e a milhões.

Lembram-se do 11 de setembro? Aqueles atentados terroristas pararam o mundo. Todos grudaram na TV para apreciar todos os lances. Na internet as pessoas procuravam por vídeos que a TV não mostrava, como as pessoas se jogando das torres. Carnificina, um show para um público sedento de imagens chocantes.

Em minha opinião não é sede por sangue. É a vontade de apreciar imagens diferentes do comum. Praticamente surreais. Quem imaginaria um Boing batendo no maior prédio de Nova York? E depois no outro?

Mesma coisa com a super Tsunami que matou 300mil pessoas na Ásia. Aliás, parece que o número de mortos não importa nessas tragédias. Tanto que seja maior que a previsão inicial, todos vão acompanhar. No acidente da Gol morreram 154, no da TAM a previsão passa de 180, no WTC em Nova York foram mais de 3000 pessoas. Mas nada se aproximou do que aconteceu no oriente: 300 mil pessoas.

Essa diferença de vítimas fatais e relação com a cobertura pelo jornalismo podem ser ligadas muito mais à valorização de uns seres humanos em detrimento de outros do que pela relação natural ou premeditada. Os milhares de soldados Norte Americanos mortos no Vietnam são muito mais lembrados pela história do que as centenas de milhares de japoneses mortos nas bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki.

Vela ressaltar: a história ocidental. O nosso jeito de mundo, a nossa cultura, a nossa vida afinal. Pois não é uma tragédia centenas de crianças africanas morrendo todos os dias de FOME?

O mundo está no caminho errado. Mas a máscara que a sociedade criou nos impede de perceber a realidade. Somente quando fatos fora do normal ocorrem e chocam, é que recuperamos uma fagulha da capacidade de entender que alguma coisa está errada e que algo deve ser feito.

Mas nada será feito. Por fim, o que nós, a sociedade, queremos é conforto e garantia de sobrevivência. De cada um, dos mais fortes, que hoje é quem tem mais dinheiro, e que o resto seja exterminado como os africanos estão sendo. Só somos sensibilizados quando os nossos são feridos, quando nós, de certa maneira, temos um pedaço da nossa alma roubado.

Por: A.S.Em: 18 de julho de 2007 | Em Sem categoria  |
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11 respostas para “Uma visão pessoal sobre o Acidente da TAM e outras tragédias”

  1. Parabens pelo texto.

    É ótimo saber que no Brasil ainda existem pessoas que pensam no que vêem, ao invés de simplesmente verem pelo instinto (como mencionado no texto).

    Novamente, parabens.

  2. Excelente texto. Interessante, você conseguiu expressar muito bem o que penso a respeito dos nossos sentimentos em relação a estes acidentes e tragédias.

    Toda vez que passamos por um acidente de transito, as pessoas diminuem a velocidade e tentam olhar a maior quantidade de detalhes possível. Se alguém é assassinado em um local próximo, as pessoas todas correm para "assistir de camarote". Eu nunca gostei de "ver", mas normalmente me interesso pela notícia, em saber o que ouve, porques e etc.

    Parece que uma voz fica dizendo "saiba mais", "olhe", "pergunte", etc. Acho que a maioria das pessoas simplesmente ouvem estas vozes…

    É como se fôssemos controlados remotamente.

    Como você disse, quem sabe um dia a máscara cai.

  3. Não se pode negligenciar o fato e tampouco ignorar o sofrimento de tantas famílias com o ocorrido, mas tanto alarde com essa situação só tem uma explicação: os mortos são da classe média. Anteontem morreram cerca de 30 pessoas em um acidente de ônibus e o Ministro dos Transportes continua faceiro e tranquilo em seu cargo. Obviamente que só morreram pobres, como tantos outros pobres que morrem no sertão nordestino, nas favelas das grandes cidades (todas, não somente no Rio de Janeiro. Curitiba, a cidade modelo, por exemplo, tem favelas consideráveis e uma violência inimaginável), na falta de segurança dos canteiros das obras da classe média e em uma infinidade de outras situações.

    Há sim uma dificuldade enorme de empatia da classe média com tudo que a cerca. Só há problemas reais e imediatos quando estes a afetam. Lamentável.

  4. O que mais nos deixa estasiados é que em meio as tragédias ainda existem pessoas que fazem de tudo para tirar proveito destas situações.

    No acidente da Tam na noite dessa terça-feira enquanto todos estavam paralisados assistindo àquelas cenas, outros aproveitavam-se da situação para furtar os carros que haviam sido deixados no local e policiais foram chamados para fazer o serviço de segurança devido várias pessoas que praticavam furtos em lojas próximas ao aeroporto e até mesmo no local do acidente.

  5. Somos assim mesmo, o que está ao nosso alcance sempre nos sensibiliza mais. É como um bom frequentador de churrascaria que não tem coragem de matar um frango, depenar e comer. Mas veja bem… não tinha uma música do Legião Urbana, no seu primeiro disco que dizia "é sangue mesmo, não é mertiolate / E todos querem ver e comentar a novidade / É tão emocionante um acidente de verdade / Estão todos satisfeitos com o sucesso do desastre.

    E a televisão e seus patrocinadores deliram, expõem as pessoas no seu momento mais frágil para o país inteiro. Quanta emoção! E não é que os tablóides antigamente sempre tinham um repórter de prontidão junto aos prédios famosos da cidade para ver se flagrava algum suicida? Até que alguém teve o bom senso de proibir a veiculação dos suicídios, uma vez que estava estimulando a mórbida prática.

    Mas somos carnívoros mesmo, adoramos sangue: filmes de terror, jogos, acidentes em corridas, lutas, etc. E quanto a bomba atômica, não foi mais um "ato civilizatório"?

    Parabéns pelo artigo, também já peguei os feeds daqui!

  6. No fim, acho que é meio isto. Somos ainda tribais.

    Quando aquele, nosso meio, nossa tribo, sofre, nossos olhos se abrem para o sofrimento alheio.

    Qdo não são os nossos, acaba sendo meio que, sofrimento de outros, que não nos diz respeito.

    Se é errado ou não, não sei. Mas que é, é …

  7. O pior de tudo, meu caro, é que as investigações vão durar meses, e no fim, quem vai levar culpa ou é o piloto ou a máquina. Nunca a Infraero. A propósito uma pergunta: por que levar caixa preta para ser decodificada nos EUA? Temos especialistas aqui para isso.

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